domingo, 3 de abril de 2016

O Tigre e o Dragão – A Espada do Destino - Crítica


Primeiro de tudo, devo dizer que nunca fui fã do gênero “Wuxia” e nem sabia o que era até assistir O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon 2000).
Sendo introduzido aos filmes de artes marciais pós Bruce Lee e Jackie Chan, que interpretavam o sujeito “normal” (ou tão normal quanto um sujeito como Bruce Lee e Jackie Chan podem ser) não me atraía a idéia de semideuses que lutavam e “voavam” sem maiores explicações. Mas O Tigre e o Dragão aproveitou a porta para o mundo das artes marciais aberto por Matrix (The Matrix-1999) e apresentou personagens profundos, metáforas taoístas e combates emblemáticos, beleza poética nas cenas de luta. O Resultado foi um sucesso raramente visto em uma produção falada em uma língua estrangeira: foi sucesso de bilheteria e crítica, levou quatro das seis indicações ao Oscar,revitalizou o gênero e o apresentou para o ocidente, abrindo caminho para outros sucessos como Heroi (Hero - 2002) e A Casa das Adagas Voadoras (The House of the Flying Daggers - 2004), além de catapultar o status de Ang Lee ao de renomado diretor.


E sim, eu acabei gostando do filme. Agora, 16 anos depois, o renomado coreógrafo Yuen Woo Ping dirige a continuação O Tigre e o Dragão: A Espada do Destino (Crouching Tiger, Hidden Dragon 2016)que traz Michelle Yeoh reprisando seu papel de Yu Shu Lien, Donnie Yen como Lobo Silencioso/Meng Sizhao e Jason Scott Lee, irreconhecível sem a sua cabeleira como Hades Dai, o vilão da história. No enredo, 18 anos se passaram desde os eventos do primeiro filme e Shu Lien viaja a Pequim para visitar a casa do Sr. Te onde a Espada de Li Mu Bai, a Destino Verde, foi deixada como visto no primeiro filme. Durante a noite, um ladrão tenta roubar a espada mas é capturado por Vaso Nevado e Shu Lien: Ele é Wei Fang, um dos seguidores de Hades Dai e alerta que caso não seja libertado, Hades Dai virá matar todos. É emitido um pedido de ajuda e vários guerreiros decididos a honrar a memória do Sr. Te atendem esse chamado. Para a surpresa de Shu Lien entre eles está Lobo Silencioso/ Meng Sizhao. Ele era o noivo de Shu Lien e irmão de Li Mu Bai, que foi dado como morto como dito no filme anterior. Em meio a isso Vaso Nevado pede que Shu Lien seja sua mestra enquanto ela tem de lidar com o retorno de Lobo Silencioso e com a ameaça de Hades Dai.


Uma coisa que me incomodou de cara é o fato do filme não ser falado em Mandarim, que foi uma ótima (e corajosa) ideia do filme original que trazia um ar de exótico para o publico ocidental e uma proximidade ao público asiático. A fotografia aqui também em nada lembra o filme original, tem um ar de “pasteurizado” com muitos filtros e efeitos digitais e a produção se vale de vários cenários de computação gráfica, que a certa altura lembram os cenários artificiais da “nova trilogia” de StarWars. Antes de Matrix (the Matrix 1999) catapultar o mestre Yuen Woo Ping ao status de maior coreógrafo de artes marciais da história do cinema, ele foi ator e dirigiu vários filmes, entre eles alguns com Donnie Yen e Michelle Yeoh. Mesmo com toda essa familiaridade e experiência as lutas não conseguem ser memoráveis. O problema parece ser exatamente a direção: Os cortes durante as sequências de lutas parecem fragmentá-las e não complementá-las. A sensação é a de que estamos sempre perdendo uma parte da ação. O enredo também joga no tradicional. Temos Vaso Nevado que tem algum objetivo misterioso e que parece saber algo sobre Wei Fang; O próprio Wei Fang que acredita que seu destino esteja ligado a destino verde graças a uma profecia; Temos Shu Lien, tentando lidar com a sua nova discípula Vaso Nevado e com a volta de Lobo Silencioso do mundo dos mortos. Também não há os grandes temas e motivações do filme anterior embutidos nos diálogos. Aqui temos heroísmo, altruísmo, vingança, dever, temas mais tradicionais.


Muito antes de Mad Max: Estrada da Fúria, Ang Lee conseguiu subverter as nossas espectativas a respeito de um filme de ação. Ao usar como ponto de partida a história da aposentadoria de um herói vista pelo ponto de vista das mulheres, e lentamente mostrar que a história é na verdade a respeito destas mulheres. Já aqui o enredo não adota nenhum ponto de vista especifico, o que causa a sensação de distanciamento. Apesar de interessante, a luta final de Hades Dai que aliás é um vilão sem grandes propósitos, contra Lobo Silencioso alcança o ápice da utilização de computação gráfica no filme. Os atores são substituidos pelas suas versões digitais, que apesar de muito boas, são perceptíveis. Enfim o Tigre e o Dragão: Espada do Destino é um filme de artes marciais mediano e isso definitivamente não é o que se espera de um filme que carrega o nome O Tigre e o Dragão. O Tigre e o Dragão – A Espada do Destino (Crouching Tiger, Hidden Dragon – Sword of Destiny 2016) Dir. Yuen Woo Ping Elenco Michele Yeoh, Jason Scott Lee, Donnie Yen

Nota: 3 Fong Say 
Yuk

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