Na última quarta-feira, dia 19, Keiji Nakazawa nos deixou. É provavelmente o homem que melhor soube explicar o que é a esperança através de Hadashi no Gen ou Gen - Pés Descalços, como ficou conhecida sua obra aqui no Brasil.Sua obra, autobiográfica, conta a história da família Fukuoka antes e depois da queda da bomba de Hiroshima, vista sob os olhos de Gen, um garoto de seis anos, a mesma idade de Keiji Nakazawa quando a bomba caiu.
Na forma de Daikichi Nakaoka, o patriarca da família, a obra também critica a hegemonia imposta pelo país durante a 2ª guerra mundial, quando toda a força de trabalho do país foi redirecionada para a indústria armamentista.
De um lado a idolatria cega ao imperador e ao país é cobrada como um dever do cidadão, do outro falta emprego, dinheiro e comida. Tudo isso justamente quando Kimie, a mãe de Gen, está grávida. Mas tudo muda após a queda da bomba.
O foco muda de crítica à política do Japão durante a 2ª guerra para a luta pela sobrevivência daqueles que resistiram a devastação nuclear. A história passa a narrar a vida após a bomba nuclear em uma cidade pós apocalíptica: rios cobertos de corpos, estátuas carbonizadas que já foram pessoas, sobreviventes vagando como zumbis, arrastando pelo chão a pele descolada do corpo. A arte tão simplista do mangá pode causar, a primeira vista, estranheza e fazer se perguntar se uma arte mais detalhada não teria um efeito maior em tocar o leitor, conectá-lo a história. Mas o fato é que o traço simples, longe de ser realista, causa no leitor a inevitável reação de imaginar como seria aquilo de verdade, o que causa um impacto maior do que qualquer desenho possa descrever. Principalmente quando se sabe que tudo isso são as memórias de um garoto de seis anos de idade. Gen - Pés Descalços é cruel, trágico e implacável ao relatar os horrores da guerra. Mas também é uma obra transformadora, não pela crítica a guerra, a arma nuclear, mas por ensinar que a esperança de uma criança é mais poderosa que qualquer arma. Arigatou, Nakazawa-san.
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