sábado, 11 de agosto de 2012

Max Payne 3: Rockstar subverte suas inspirações e vai além da Homenagem

"Houve boatos de que eu estava na pior. É, bem..."

"The way I see it.. there're two types of people: those who spend their lives trying to build a future. And those who spend their lives trying to rebuild the past." - Max Payne



O elemento essencial no sucesso de Max Payne 3 é o enredo, que deixa o jogador imerso na pele do protagonista. Mais do que isso, acredito que a estória desenvolvida pela Rockstar é um marco na franquia e até mesmo nos roteiros da softhouse.

Fique tranquilo, esse texto é spoiler-free.

O enredo colocou o tira mais casca grossa de N.Y. em São Paulo, trabalhando como segurança particular da família de Rodrigo Branco, um renomado empresário paulistano. Mais do que um novo emprego, essa proposta é um recomeço para Max que se aposentou e se tornou um sujeito rabugento, alcoólatra e viciado em analgésicos. Sua imagem atual em nada lembra a do herói dos jogos anteriores e, consequentemente, Max falha ao tentar impedir o sequestro de Fabiana Branco, a “esposa troféu” do empresário. Depois que a entrega do resgate dá errado, fica claro que a única coisa que parece não ter mudado é a má sorte do herói. É então que Max decide partir em uma missão quase suicida para tentar salvar Fabiana.

Eu me lembro de não me importar muito com o enredo dos primeiros jogos que parafraseavam os filmes de John Woo, cinema noir e costurava tudo isso com metáforas baratas. Aqui, a sensação de deslocamento de Max em um país estrangeiro é o ingrediente perfeito para metáforas memoráveis, que muitas vezes servem como alívio cômico para o enredo do jogo.
Nas mesas da delegacia, pratos cheios de coxinhas. 
Um easter egg que só brasileiro vai entender.

As analogias também são ótimas. Eu adoro, por exemplo, a sequência da entrega do resgate, que se passa em um estádio de futebol. Quando a negociação dá errado, a escolha do cenário se torna emblemática: Fica claro que a idéia a ser passada é que Max entrou em um jogo no qual ele não consegue perceber as regras nem os jogadores até que seja tarde demais.

Mas entre metáforas e analogias, o elemento mais interessante do enredo realmente é a escolha de São Paulo como locação. Mais importante que analisar se a cidade virtual corresponde a real ou não, é notar o intuito da Rockstar ao tirar Max Payne de N.Y., seu habitat natural:  A desconstrução do “ herói de filme de ação” dos jogos anteriores.

Se nos dois primeiros jogos a inspiração vinha de filmes policiais, noir e cinema de ação asiático, aqui há uma influência muito maior do cinema documental brasileiro, da violência urbana crua de Tropa de Elite, Cidade de Deus e Ônibus 147. E Max, um estereótipo de filmes policiais da década de 80, fica totalmente deslocado quando é inserido nesse retrato realista de São Paulo. É como se um herói de um filme de ação hollywoodiano pulasse da tela do cinema para o mundo real, só para descobrir que aqui ele não passa de um velho amargurado, alcoólatra e dependente químico. Max é tratado como uma fraude até mesmo pelos próprios bandidos, que gritam frases como “Brasileiro já cansou de dar boi pra gringo”, “a década de 80 já era” ou “Quem você pensa que é, pra vir resolver os problemas do Brasil?”.

Infelizmente, nas fases finais do jogo, essa mesma abordagem se torna o calcanhar de aquiles do enredo, quando leva a estória rumo a dicotomia da humanização do personagem versus o clímax esperado de um jogo de ação. A solução corriqueira encontrada para o dilema acaba tornando Max um “one man army”, digno de integrar o elenco de “The Expendables”, em um desserviço a tudo que foi estabelecido durante o jogo.

Mas mesmo com essa tropeçada,  Max Payne 3 é um marco na franquia e nos roteiros criados pela softhouse até então: Em muitos dos grandes títulos da Rockstar, vemos uma série de referências e homenagens as obras que inspiraram o jogo: em L.A. Noire o título é auto explicativo: faz reverência ao cinema Noir; GTA San Andreas é uma coletânea de elementos da cultura gangsta, Hip Hop e dramas sobre o crime; Red Dead Redemption é uma ode aos Sergios (Leone e Corbucci), ao "estranho sem nome" imortalizado por Clint Eastwood e às trilhas sonoras de Enio Morricone.

Red Dead Redemption é uma Ode ao cinema Western
Mas em Max Payne 3, os estereótipos do cinema de ação são desmitificados quando jogados em uma favela de São Paulo. Ao retratar um herói hollywoodiano de forma humanizada em um ambiente realista, a Rockstar vai além da Ode. É como se até aqui, todos esses títulos citados acima fossem uma adaptação não-oficial das obras que os inspiraram, enquanto que Max Payne 3 promove a desconstrução e subversão do gênero homenageado, de uma forma que lembra a homenagem que Kill Bill faz com os exploitations, western e filmes asiáticos de artes marciais. E ser comparado a Quentin Tarantino, é um elogio para poucos.

E você, se lembra de algum outro jogo cujo enredo promove algo parecido? Acha que a Rockstar já havia feito um serviço parecido em um jogo anterior? Discorda do que foi dito? Dê voz a sua opinião:  Comente, divulgue.

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